O SEMEADOR E O LADRILHADOR

 

O MAE oferece a seu público a promoção da memória de dois homens com experiências acadêmicas inigualáveis, e com vínculos indissociáveis com a vida universitária.

 

É por conta disto que, em parte, a exposição deve ser tomada como uma apresentação das vidas e das obras destes dois respeitáveis intelectuais que ajudaram a construir com entusiasmo a Universidade Federal da Bahia. Neste sentido esta exposição é, também, uma elaboração sobre ciências – no caso a Arqueologia e a Etnologia – e sobre tudo de bom que se pode alcançar através dela.

 

Ao evocar a presença de Pedro Agostinho da Silva e Valentin Calderón no Brasil pretendia-se, de fato, ter na lembrança a metáfora do Semeador e do Ladrilhador, com que Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil interpretou os diferentes processos coloniais que se desenvolveram na América, particularmente aqueles processos relativos aos espanhóis e aos portugueses.

 

Pedro Agostinho é justamente um semeador que anarquicamente atira seus grãos ao ar e que, por isso mesmo, colhe ventos e tempestades, além de muitos frutos benfazejos. Fazia ele parte daquele contingente de liberais portugueses que saíram aos quatro ventos sempre na perspectiva de um dia retornar para sua pátria amada, em relação a qual ele nutriria o sentimento de permanente saudade.

 

Pedro Agostinho, filho do notável intelectual George Agostinho da Silva, veio fixar-se na Bahia após a conclusão de sua dissertação de mestrado na Universidade de Brasília.

 

Já Valentim Calderón tinha outro caráter. Era meticuloso e rígido. É aquele que veio para ficar, aqui se estabelecendo considerando uma inevitável permanência. É um homem duro, mas sensível, disposto a remover pedras no caminho. É sua regra escavar, medir, alcançar o que lá no fundo foi depositado. Este era o temperamento e o caráter dos espanhóis.

 

Não por acaso os dois chegam ao Brasil no mesmo período, isto é, durante os anos quarenta do século XX. E não é por acaso, também, que eles vão se encontrar no campo universitário, e se estabelecer como referências no campo na esfera intelectual e acadêmica.

 

Pedro Agostinho firmou-se como um intelectual capaz de dialogar com movimentos sociais, sobretudo o indigenista. Sua ação política e acadêmica ensejou mudanças sociais importantes e o reconhecimento de novos e distintos grupos étnicos. Seu papel também como mentor de uma verdadeira escola de antropologia na Bahia fez-se patente.

 

Valentim Calderón, por sua vez, fez-se importante homem do estado. Foi Diretor do Museu de Arte Sacra, fundador do curso de museologia na UFBA, Diretor da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi igualmente o primeiro intelectual a realizar trabalho científico e sistemático na arqueologia baiana.

 

Pedro Agostinho e Valentim Calderón foram pilares básicos sob os quais se edificou o MAE/UFBA.